terça-feira, 17 de abril de 2018

Os reveses da vida: de Noemi a Mara, de Mara a Noemi



Autor: Wallace Sousa


Hoje ouvi uma palavra muito interessante, sobre a vida de Noemi, ministrada por meu amigo Werbethi, baseada no livro de Rute. Enquanto eu o ouvia falar, e me alimentar daquelas palavras, comecei a pensar um pouco mais além (ele falou de Rute 1.1 a 7):

"Assim, pois, foram-se ambas, até que chegaram a Belém; e sucedeu que, entrando elas em Belém, toda a cidade se comoveu por causa delas, e diziam: Não é esta Noemi? Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara; porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso. Cheia parti, porém vazia o SENHOR me fez tornar; por que pois me chamareis Noemi? O SENHOR testifica contra mim, e o Todo-Poderoso me tem feito mal." Rt 1.19 a 21

Detendo-me a meditar nisso, comecei a refletir e gostaria de compartilhar com você alguma coisa sobre isso, tudo bem?

1. A vida, às vezes, não é justa

Você poderia se colocar no lugar dessa senhora, e imaginar os sofrimentos que ela passou? Se já não fossem suficientes as agruras da estiagem prolongada, agora avalie a subsequente perda de marido, seguida pela perda dos filhos. E isso longe de sua terra, de seus parentes, amigos e auxílios conhecidos. Naquela época, a mulher era muito mais dependente do esposo do que hoje, e a perda de seus filhos foi um golpe a mais em uma vida transbordante de amargura.

Conhecedor de situações quase parecidas, onde meu pai teve que migrar do Nordeste em direção a “São Paulo” (ou Eldorado, para alguns… risos), em busca de uma vida melhor, fugindo do flagelo da seca, que abatia animais no campo e ânimos na cidade, posso ter um vislumbre da situação de Noemi. Se meu pai era obrigado a trabalhar de “sol a sol” para garantir o pão em casa, e minha mãe trabalhava “pra fora” para complementar a renda, e eu mal os via durante o dia, imagino que a vida que Noemi levava não era nada fácil.


Sim, a vida, às vezes, não é fácil, mas é a vida, e é assim que a vida é. Quanto a você, por mais que a vida lhe pareça injusta, a alternativa que lhe sobra é: viver a vida. Viva a vida, meu caro, minha cara. A vida, em parte, é aquilo que fazemos dela, e não só aquilo que ela faz de nós, ou nos faz passar. Se você está respirando, aproveite e viva a vida!

2. A vida, muitas vezes, é amarga

Amargura é uma palavra que, para alguns, é sinônimo de viver. Existem situações que são tão amargas que contaminam nosso espírito e ânimo de tal forma que a vida se torna uma fonte de fel e nós, um poço de amargura. Mas, mesmo reconhecendo que há coisas que não deveriam existir e, pior, que essas bombas insistem em estourar em nosso colo, não adianta virar as costas pra realidade e fingir que essas coisas não nos dizem respeito.

O amargor da vida existe e, na maior parte das vezes, independe de nossa vontade. Se certas coisas não dependem de nós, não adianta esquentar a cabeça e ficar se angustiando se não nada vai mudar, não importa o quanto você se estresse com isso. A vida pode ser amarga mas, às vezes, coisas amargas, apesar do gosto ruim, trazem grandes benefícios. Já comeu jiló? Não? É ruim, mas faz bem. Sim, estou falando por experiência própria, não precisa fazer essa cara… risos

3. A vida, às vezes, é incompreensível

Se você já tentou entender a vida e ainda não conseguiu, quer dizer, conseguiu dar um nó no cérebro, parabéns! Você faz parte do grupo de pessoas consideradas “normais” pela psicologia, pelo marketing, pelos cientistas, pelos vendedores de porta-em-porta e até pelo vendedor  da barraca de churrasquinho (vulgo “filé-miau”, para alguns). Se você é torcedor fanático de futebol, pode perguntar para quem torce pelo seu time e para quem torce contra: “você pode me explicar o mistério da vida?”. Garanto, ele não vai saber, e se soubesse, não estaria torcendo pelo mesmo time que você, e nem contra, se é que me entende… #ironia

Querer entender a vida é mais uma fonte de preocupação e angústia que acomete 9 entre 10 pessoas vivas (a que sobrou ainda não atingiu idade suficiente para distinguir a mão direita da esquerda). Agora, sejamos práticos: você, para dirigir um carro, precisa entender o funcionamento dos pistões do motor e da rebimboca da parafuseta? Não, né! Então, tem gente que nem sabe o que é troca de óleo ou troca de pneu (não vou entrar em maiores detalhes, pois isso pode me custar metade de minha audiência no blog… risos), mas nem por isso deixa de dirigir ou andar de carro.

Sabe do quê mais? Viver pode ser um passeio também: às vezes tem solavancos, mas esse sobe e desce pode ser divertido, dependendo do ponto de vista. Encare a vida como um passeio, onde você é o passageiro, e verá como as coisas podem melhorar sem muito esforço, apenas boa vontade. Difícil é querer tomar as rédeas da vida nas mãos e não saber bem para onde ir, e acabar se frustrando e perdendo o ânimo. As vezes em que mais me decepcionei na vida foi porque achava que a vida tinha de ser do jeito que eu queria, e não entendia porque ela insistia em ser diferente, mas, quando me dei conta que a vida tem seu próprio rumo e molejo, parei de gastar energia com isso e procurei ser feliz.

E, para ser feliz, não é preciso entender de tudo, nem a todos. Pra ser feliz, basta estar vivo, e querer viver. O resto, vem, se tivermos paciência.

4. A vida, às vezes, nos revolta

Sim, eu reconheço: a injustiça, a amargura e a falta de lógica que a vida, muitas vezes, se nos apresenta nos causa revolta. Como aceitar tantas situações difíceis de engolir que vemos nos jornais, cada vez com mais frequência e intensidade? Como não se revoltar diante de pessoas que se utilizam do poder para serem e fazerem atos que os beneficiam, em detrimento da maioria?

A leitura de jornais, de sites e outras fontes de informação, repletas de tragédias, sejam locais ou nacionais, próximas ou distantes, individuais ou coletivas, vem corroborar esse sentimento de que as coisas vão de mal a pior e que não há nada que se possa fazer para mudar esse quadro, não é verdade? Todavia, se você é leitor assíduo ou ocasional deste blog, verá que não me canso (bem, não me cansar é um eufemismo, ok?) de postar coisas aqui que tentam ajudar pessoas desmotivadas a encontrar motivos para seguir em frente.

Muitas vezes, comentários em posts antigos, comentários que jamais esperava ver, como alguém dizer que tal post foi determinante para que sua vida tomasse outro rumo, que estava desistindo de tudo, mas que encontrou naquelas linhas perdidas no meio da espuma virtual da blogosfera, isso me faz ver que, para alguns, o que escrevo encontra eco em sua alma, muda sua percepção e traz novo alento. Por mais que a vida me revolte, não posso deixar que isso me impeça de continuar lutando para que a vida de alguém tenha sentido, nem que, para isso, eu tenha que escrever algo sem sentido, non-sense.

Revolte-se, mas não abandone a vontade de viver, senão sua revolta não valerá de nada, e, provavelmente, só trará mais revolta para alguém.

5. A vida nos faz amargos, mas Deus muda situações

Estou me lembrando, agora, de uma situação que aconteceu anos atrás, para ser mais exato, no século XX, quando as dificuldades financeiras de meus pais atingiram um nível de descontrole e eu me sentia vagando num oceano turbulento e bravio, sem ter onde me agarrar naqueles momentos de angústia profunda. Foi bem nessa época que eu atravessei pelo “deserto da vida”, a tenebrosa depressão.

Um dia, chegou um homem no comércio de meu pai, escoltado por um advogado, ameaçando meu pai de medidas judiciais, de tomar o resto do que ele tinha e até de prisão, caso ele não honrasse o acordo que ele veio propor. Apesar de eu já ser formado, de ter rompido a barreira do 20 anos e me considerar uma pessoa razoavelmente instruída, aquilo foi um terremoto em minhas emoções já abaladas. Aquilo não apenas me balançou, não, eu fiquei totalmente desequilibrado. Só me lembro que saí em desespero em direção à igreja, no culto de oração do meio-dia, com as lágrimas rolando pela face, sem me importar com mais nada. Não foi uma experiência agradável.

Entretanto, hoje, escrevendo isso, vejo que a boa Mão de Deus me guardou, não só a mim, mas também a minha família. Passamos por aquele deserto, vencemos aquela prova, saímos do lado de lá. O que aconteceu? Simples, Deus mudou a situação. Deus muda situações, reverte quadros e tira do cativeiro. Como? Só quem passa por isso sabe e entende. É difícil explicar, mas é muito mais real do que você possa imaginar.

Aconteceu comigo, por que não pode se repetir com você?

Conclusão

Observe o caso de NOEMI, que significa graciosa, doce, agradável. Veja o que ela passou, e que a marcou de tal forma que ela sentia vergonha de ser chamada pelo antigo nome. Ela queria mudar de vida, como não conseguiu, mudou de nome. Mara (amarga) era a representação da derrota, da angústia cotidiana que a perseguia: “cheia saí, vazia voltei”. Ela estava cheia, mas de amargura, um cálice de fel transbordando. Talvez esteja assim com você hoje, mas, assim como Deus ainda não havia terminado Sua obra na vida de Noemi, Ele ainda tem algo a fazer e realizar em sua vida.

Sim, Ele é o Deus que muda situações. Hoje, você pode estar bebendo um cálice de fel, mas na mão divina, ainda há mel. Hoje, você pode ser Mara, mas Deus tem algo doce e agradável esperando por ti. Sua vida, sua história, vai mudar. Se sua vida hoje pode ser resumida “De Noemi a Mara”, espere pelo capítulo final, onde Deus vai escrever o emocionante desfecho “De Mara a Noemi”. Observe o fim do livro de Rute, o que diz:

As mulheres disseram a Noemi: “Louvado seja o Senhor, que hoje não a deixou sem resgatador! Que o seu nome seja celebrado em Israel! Rute 4 : 14

Wallace Sousa é autor do blog Desafiando Limites e colabora com o Tenda na Rocha desde 2012
Fonte: Blog Tenda na Rocha 

sábado, 14 de abril de 2018

Jesus e a mulher samaritana: uma abordagem inédita




Autor:  Eli Lizorkin-Eyzenberg, Ph.D. em Teologia
Do: Israel Institute Of Biblical Studies
Instituição Parceira do Tenda na Rocha


Evangelho de João capítulo 4

O  encontro de Jesus  com  a mulher Samaritana junto ao poço de Jacó,  começa a definir o cenário para o que aconteceria mais tarde em Samaria e está firmado no que aconteceu na Judeia no tempo em que já se desenvolvia o Evangelho. Samaria se transformaria  em um importante polo de evangelismo, aumentando significativamente os discípulos de Jesus. 

Geografia

O texto simplesmente diz que Jesus "teve de passar por Samaria" (vs.4). Talvez, neste momento uma curta aula de geografia seja útil.  Samaria ficava entre  terras da Judéia e da Galiléia. O caminho por Samaria levava o dobro do tempo e era mais perigoso  porque era comum os ânimos se exaltarem entre Samaritanos e Judeus (Ant. 20,118; Guerra 2.232). Não nos é dito a razão pela qual Jesus e seus discípulos precisavam passar por Samaria. João simplesmente diz que Jesus "tinha que ir", implicando que para Jesus esta não era uma atividade comum. Talvez Jesus precisasse chegar a Galiléia relativamente rápido, indo por Samaria, chegaria atrasado. Ele saiu quando sentiu haver confronto com os fariseus sobre sua nacionalidade israelita. Isto está associado à compreensão de Jesus  de que o tempo para tal confronto não deveria ser acelerado. Na mente de Jesus, o confronto com uma liderança religiosa da Judéia, (e não se enganem sobre isso, os principais fariseus eram parte integrante de tal liderança) no momento era prematuro e muito precisaria ser feito antes de ir para cruz e beber do cálice da ira de Deus. A maneira como Jesus via os Samaritanos e seu próprio ministério  pode nos elucidar  a medida que examinarmos esta história.

Sabemos que os movimentos e as atividades de Jesus estavam de acordo com a liderança do Pai. Ele fez o que viu o Pai fazer (Jo 5: 19). Sendo este o caso, podemos estar certos de que a jornada de Jesus através de Samaria,  foi dirigida por seu Pai e assim, também, foi a sua conversa com a mulher Samaritana.

A jornada de Jesus através de território hostil e herético teve um significado além de qualquer explicação superficial. Jesus foi enviado para produzir  paz entre Deus e as pessoas e a realização desse grande propósito começou com um encontro entre Jesus e aqueles que praticamente moravam ao lado: os Samaritanos.

Os samaritanos

Apresentamos duas histórias diferentes dos samaritanos: uma - de acordo com Samaritanos Israelitas, e outra - de acordo com Judeus Israelitas. Enquanto existem dificuldades sobre a confiabilidade dos documentos antigos contaminados pela polêmica Judaica- Samaritana, bem como uma datação tardia das fontes de ambos os lados, algumas coisas podem, contudo, ser estabelecidas:



1) Os Samaritanos chamavam-se a si mesmos de Bnei Israel (Filhos de Israel).

2) Os Samaritanos eram um grupo considerável de pessoas que acreditavam preservar uma religião original do antigo Israel. O nome Samaritano traduzido literalmente do hebraico significa "os Guardiões" (de leis e tradições originais). Embora seja difícil falar em números concretos, uma população Samaritana no tempo de Jesus era comparável àquela dos Judeus inclusos na grande diáspora.

3) Os Samaritanos acreditavam que o centro de adoração de Israel não deveria ser o Monte Sião, mas sim o Monte Gerizim. Eles argumentaram que este era o local do primeiro sacrifício Israelita na Terra (Deuteronômio 27: 4) e que continuam a ser o centro da atividade sacrificial dos patriarcas de Israel. Este era o lugar onde era o que era bênçãos como pronunciadas por antigos Israelitas. Os Samaritanos acreditavam que Betel (Jacob), o Monte Moriá (Abraão) e o Monte Gerizim eram o mesmo lugar.

4) Os Samaritanos tinham um credo quádruplo: 1) Um Deus, 2) Um Profeta, 3) Um Livro e 4) Um Lugar.

5) Os samaritanos acreditavam que os Judeus (crentes no Deus de Israel situados na Judéia) haviam tomado o caminho errado em sua prática religiosa pela importação de novidades para a Terra durante o retorno do exílio Babilônico.

6) Os Samaritanos autênticos rejeitaram a supremacia da dinastia Davídica em Israel. Eles acreditavam que os sacerdotes levitas em seu templo eram legítimos líderes de Israel.

Agora que fizemos um resumo parcial levando em conta o outro lado da história e  crenças dos Samaritanos, vamos nos voltar para uma versão Judaica da própria história. Este registro essencialmente origina-se de dois Talmud e sua interpretação da Bíblia Hebraica, de Josefo e do Novo Testamento.

1) Os Samaritanos eram um grupo de pessoas com misturas teológicas e étnicas. Eles acreditavam em um Deus único. Além disso, eles associaram seu Deus, com o Deus que deu um Torá ao povo de Israel. Os Samaritanos eram geneticamente relacionados aos remanescentes das tribos do norte que foram deixados na terra após o exílio Assírio. Eles se casaram com gentios, que foram transferidos para Samaria pelo imperador Assírio. Este ato de desapropriação e transferência de sua terra natal foi feito em uma tentativa estratégica de destruir a identidade do povo e prevenir qualquer potencial de futura revolta.

2) Nos escritos rabínicos Judaicos, os Samaritanos eram também conhecidos pelo termo "Kuthim." O termo está previsto para um local no Iraque do qual foram importados exilados não Israelitas para Samaria (2 Reis 17:24). O nome Kuthim ou Kuthites (de Kutha) foi usado em contraste com o termo "Samaritanos" (os guardiões da lei). Os escritos Judaicos enfatizaram a identidade estrangeira da religião e a prática Samaritana, em contraste com uma verdadeira fé de Israel, que eles chamariam especialmente em um período posterior, como Judaísmo Rabínico [1]. A interpretação rabínica dos Samaritanos não foi totalmente negativa.

3) De acordo com 2 Crônicas 30: 1-31: 6, as tribos do norte de Israel, eram todas  exiladas por Assírios e, portanto, as que ocupam a terra (Samaria) eram de origem não Israelita e rejeitada em uma leitura mais atenta da Bíblia Hebraica. Esta passagem diz que nem todas as pessoas do reino do norte foram exiladas pelos Assírios. Alguns, confirmando uma versão Samaritana, permaneceram mesmo após uma conquista Assíria da terra no século 8 AC.

4) Os Israelitas situados na Judéia (os Judeus) acreditavam que não só os Samaritanos optaram por rejeitar as palavras de profetas a respeito da supremacia de Sião e dinastia Davídica, mas também deliberadamente mudaram a própria Torá para adaptar sua teologia e práticas heréticas. Esta é uma das visões que pode ser tirada da comparação dos dois Pentateucos, um Torá dos Samaritanos e Torá dos Judeus. O texto Samaritano permite leitura muito melhor do que o mesmo Judeu. Em alguns casos, como histórias da Torá Judaica parecem truncadas, com pouca lógica e fluxo narrativo não claro. Em contraste, os textos da Torá Samaritana parecem ter um fluxo narrativo muito mais suave, isto torna a Torá Judaica problemática. Após uma análise mais aprofundada, considera-se que o pentateuco Samaritano seria uma revisão ou edição tardia de texto Judaico anterior. Com base neste e em outros argumentos, estamos de acordo com uma visão Judaica de que a Torá Samaritana é uma revisão magistral e teologicamente dirigida dos primeiros textos Judaicos correspondentes.

O Encontro





João faz diversas observações interessantes que são grandes implicações para o nosso entendimento dos versículos 5-6:

"Então, em uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado a seu filho José, estava lá,  Jesus; Cansado da  da viagem,  ao lado do poço de Jacó. Era cerca da hora sexta ".

Primeiro, João menciona uma cidade Samaritana, chamada Sicar. Não está claro se Sicar era uma vila muito perto de Siquém ou a própria Siquém [2]. O texto simplesmente chama a nossa atenção para um local perto da terra que Jacó deu a seu filho José, no sopé do Monte Gerizim. O autor do Evangelho chama a atenção para a presença de uma testemunha silenciosa:  os ossos de José. Isto é como o livro de Josué fala sobre o evento:

"Agora, eles enterraram os ossos de José, que os filhos de Israel trouxeram do Egito, em Siquém, no pedaço de terra que Jacó  comprou dos filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de dinheiro, e tornaram-se a herança dos filhos de José "(Js. 24: 32).

A razão para esta referência a José, no versículo 5 só se torna clara quando vemos que a mulher Samaritana sofreu em vida tal qual José (embora por motivos diferentes). Este detalhe possui uma lista interminável de correções, alterações e novidades que melhoram notavelmente o  funcionamento da passagem.  A Samaritana levou à salvação muitos dos samaritanos Israelitas naquela localidade ( 4: 22).

João continua: "Ali ficava o poço de Jacó, e Jesus, cansado como estava da viagem,  sentou-se ao lado do poço. Era quase a hora sexta "(v. 6). Tradicionalmente se assume que a mulher Samaritana era uma mulher de má fama. A referência à hora sexta (cerca de 12:00 hs) tem sido interpretada como se ela estivesse evitando uma multidão de outras mulheres da cidade que iam ao local tirar água. A hora sexta bíblica era supostamente o pior momento possível do dia para se deixar uma moradia e se aventurar no calor escaldante. "Se alguém  tira água,neste horário, poderíamos concluir apropriadamente que estava tentando evitar as pessoas", diz o argumento mais popular.

A teoria popular diz também  que a  mulher samaritana praticara  pecado sexual e, portanto, fora chamada por Jesus a prestar  contas  sobre os vários maridos em sua vida.  Ela estava com seu amante, um homem casado,  e que não era apta (espiritualmente falando).Deste ponto de vista, uma razão pela qual ela evita as pessoas é por causa de sua reputação, de casos amorosos  de curta duração.

Vamos, no entanto, que há  outras possibilidade. Primeiro, 12:00 hs ainda não é o pior horário para andar no sol. Se fosse 15:00 hs (hora nona) a teoria tradicional faria um pouco mais de sentido. Além disso, não é claro, se isso aconteceu durante o verão. Em segundo lugar, é possível que estejamos dando muita importância à sua ida para tirar água em "um momento incomum". Nós todos, por vezes, não fazemos coisas normais em horários incomuns? Isso não significa necessariamente que estejamos escondendo alguma coisa de alguém. Em terceiro lugar, vemos em outra passagem Bíblica as filhas do sacerdote de Midiã dando água aos seus animais por volta da mesma hora do dia, quando as pessoas supostamente não vão aos poços (Êxodo 2: 15-19).

Se aquela mulher fosse mesmo de má fama, como poderia influenciar tantas pessoas em sua região? A lógica da história parece ser diferente da lógica que se popularizou.

Vejamos mais perto de esta passagem

"Uma mulher Samaritana foi pegar água, Jesus lhe disse: 'Você vai me dar de beber? (Seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida). A mulher Samaritana disse: 'Você é um judeu e eu sou uma mulher Samaritana. Como você pode me pedir água? "(Pois os Judeus não se dão com os Samaritanos." (Vs.7-9).

Jesus e a mulher Samaritana eram de  nações diferentes e historicamente antagônicos, cada um considerava o outro desviado  drasticamente da antiga fé de Israel. Em suma, suas famílias eram inimigas sociais, religiosas e políticas. Ela tinha alguns pontos em comum com Jesus que também enfrentava perseguições de tais ordens.

Jesus certamente estava usando roupas com  franjas rituais em obediência à Lei de Moisés (Nm.15: 38 [Open in Logos Bible Software ] e Dt 22:12 [Open in Logos Bible Software  ). Os homens  samaritanos também observaram a Lei de Moisés, é provável que os ex-maridos da mulher Samaritana e outros homens de sua aldeia, também usassem  a roupa ritual com franjas. A observância da lei Mosaica pelos Samaritanos '(lembrar que o termo Samaritanos significa os "guardiões" da lei e não  pessoas que viviam em Samaria),  estava de acordo com sua própria interpretação diferenciada  da visão Judaica. 

Continuando a leitura:

"Se você conhece o dom de Deus e quem é o que pede a água, você pediria e ele te daria água viva. Senhor, disse a mulher, você não tem nada com que tirar água  e o poço é fundo . Onde você pode obter essa água da vida? És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço e bebeu ele mesmo, como também os seus filhos e os seus rebanhos e manadas? Jesus respondeu: Todo mundo que bebe dessa água volta a ter sede, mas quem bebe da água que eu der nunca mais terá sede. Porque a água que eu lhe der fará  nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna. A mulher disse: Senhor, dá-me dessa água, para que eu nunca mais fique com sede e venha aqui buscar. "Ele lhe disse: Vai, chama o teu marido e volte. "Eu não tenho marido", ela respondeu. Jesus disse: "Você tem razão quando diz que não tem marido. O fato é que tiveste cinco maridos, e o homem que você tem agora não é seu marido. O que você acabou de dizer é verdade "[3]. Senhor, disse a mulher, "Eu posso ver que você é um profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que o lugar onde se deve adorar está em Jerusalém. "

Vamos interpretar da seguinte forma : Jesus inicia uma conversa espiritual (vs.10). A mulher inicia uma declaração  apontando a incapacidade de Jesus de fornecer o que ele parece oferecer (vs.11-12). Depois de um breve confronto,  Jesus chama  atenção para uma falta de solução definitiva para o problema espiritual da mulher (vs. 13-14). A mulher continua com uma atitude incrédula (vs.15). Finalmente, Jesus  então expõe o  pecado na vida da mulher – com  padrão de relacionamentos familiares interrompidos (vs.16-18). Agora, indo direto ao coração por visão onisciente de Jesus, a mulher reconhece seu pecado, (vs.19) chamando Jesus de profeta. Mas então, como todo incrédulo,   ela tentou evitar os problemas reais do seu pecado e sua necessidade espiritual. Ela começou a falar sobre questões doutrinárias (versículo 20), a  fim de evitar lidar com os problemas reais da sua vida. 
A  interpretação popular pressupõe que a mulher era imoral, toda a conversa é vista à luz de um ponto de vista negativo. Gostaríamos de recomendar uma trajetória totalmente diferente para uma compreensão da história. Para isso, recomendamos que leia o artigo até o final.

Relendo a História

É  possível que a mulher Samaritana não estivesse necessariamente tentando evitar qualquer pessoa. Mas, mesmo que ela estivesse, há outras explicações para sua fuga que não é sentimento de culpa por sua imoralidade sexual. Por exemplo,  pessoas quando estão deprimidas não querem ver ninguém. A depressão estava presente no tempo de Jesus, como está presente na vida das pessoas hoje. Em vez de assumir que a mulher Samaritana trocou de marido como quem troca de roupa, é razoável pensar nela como uma mulher que experimentou  a morte de vários maridos, ou como uma mulher cujos maridos podem ter sido  infiéis a ela, ou mesmo como uma mulher cujos maridos se divorciaram dela por sua incapacidade de ter filhos. Qualquer uma destas sugestões e muitas outras é possível neste caso.

É importante notar que, ter cinco maridos sucessivos era inédito na sociedade antiga, especialmente em uma sociedade conservadora como a Israelita de Guardiões da Lei (Samaritanos). Este fato faz com que alguns comentaristas antigos e modernos interpretem  erroneamente o  encontro de Jesus com a samaritana, dizendo que não foi um encontro   histórico, mas metafórico. O argumento usado é de seria um absurdo uma israelita naquela época ter cinco maridos.  Naquela sociedade, a menos que a mulher fosse rica, adotar para si um estilo de vida sem compromisso, era uma impossibilidade econômica. Sem sequer considerar outras possibilidades como opções viáveis, aqueles que nos ensinaram, e esses que ainda ensinam visão popular da samaritana, têm consistentemente retratado essa mulher sob uma luz totalmente negativa. Acreditamos que  isto seja desnecessário.

Se estivermos corretos em nossas considerações, a visão popular cairá. Talvez possamos ligar o seu testemunho da mulher,  incrivelmente bem sucedido na aldeia, com uma inesperada, mas extremamente importante referência de João aos  ossos de José, uma vez que são ossos do Patriarca José remonta  à presença de Deus com a vizinhança do Monte Gerizim e a cidade santa de Siquém. Quando ouvimos uma conversa ao lado de ossos de José,lembramos  da história de José e o seu maior sofrimento imerecido. Como você se lembra, apenas parte dos sofrimentos de José foram auto impostos. Aquilo, contudo,  não era  o final, quando ninguém esperava por isso,  os sofrimentos de José acabaram por tornar-se os eventos que salvaram o mundo da fome.

Agora, considere uma conexão com José em mais detalhes. Siquém foi uma das cidades de refúgio, um paraíso seguro e um homem que já matou alguém sem intenção (Js. 21: 20-21). Como os habitantes de Siquém estão vivendo suas vidas sob uma sombra da prescrição da Torá eles eram, sem dúvida, bem cientes do estado incomum de graça e função protetora de Deus, que foi atribuído à sua cidade . Eles deveriam proteger  pessoas infelizes, cujas vidas e ameaças de vingança eram feitas pelos membros da família, mas na verdade, os refugiados em Siquém eram   inocentes de qualquer crime intencional que justificasse as ameaças[4].

José nasceu em uma família muito especial, onde a graça e a salvação eram característica. Jacó, o descendente de Abraão e Isaac, teve outros 11 filhos, cujas ações, ao invés de ajudar seu pai a levantar José, variavam de explosões de ciúme ao desejo de se livrar para sempre do irm]ao “mimado e especial”. Mas ha mais. Foi em Siquém que Josué reuniu como tribos as tribos de Israel, desafiando-as a abandonar seus antigos deuses em favor de YHWH e depois de fazer uma aliança com eles, enterrou os ossos de José lá. Lemos em Josué 24: 1-32:

"Então Josué reuniu todas as tribos de Israel em Siquém. Ele convocou os anciãos, os líderes, os juízes e os oficiais de Israel, e eles se apresentaram diante de Deus ... Mas se servir ao Senhor parece indesejável para vocês, então escolham hoje a quem você está indo para servir, se aos deuses que seus antepassados serviram além do Rio ou dos deuses de Amorreus. Porém, eu e minha família serviremos ao Senhor. "... Naquele dia, Josué fez uma aliança para o povo, e em Siquém ele elaborou decretos e leis para o povo (vs.26) E Josué registrou estas coisas no Livro da Lei de Deus. Então ele pegou uma grande pedra e erigiu ali debaixo do carvalho perto do lugar santo do Senhor ... 31 Israel serviu ao Senhor durante toda a vida de Josué e dos anciãos que sobreviveram e que tem experimentado tudo o que o senhor tinha feito por Israel. E ossos de José, que israelitas haviam trazido do Egito, foram enterrados em Siquém, sem pedaço de terra que Jacó comprara dos filhos de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de prata. Esta terra tornou-se herança dos descendentes de José ".

É interessante que o lugar do encontro de Jesus com a mulher Samaritana foi escolhido pelo Senhor da providência de uma forma tão bonita: uma mulher emocionalmente alienada que se sente desprotegida, enquanto ela vive na ou perto da cidade de refúgio, está tendo um fundamento na fé, Uma conversa de compromisso com o Renovador da Aliança de Deus - o Real Filho de Deus, Jesus. Ela é o único lugar onde os antigos israelitas renovaram sua aliança, em resposta às palavras de Deus, selando-como com duas testemunhas: 1) a pedra (Js.24: 26-27), confessando com uma boca como suas para o país com a aliança e fé no Deus de Israel, e 2) os ossos de José (Js.24: 31-32).

Em certo sentido, a mulher Samaritana faz a mesma coisa que os Israelitas antigos ao confessar a seus concidadãos a sua fé em Jesus como o Cristo e o compromisso com Salvador do mundo. Lemos em João 4: 28-39.

"Venham, ver o homem que me disse tudo o que eu já fiz. Poderia ser este o Cristo? "Eles saíram da cidade e foram para o lugar onde Jesus estava ... Muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, por causa do testemunho da mulher ..."

A ligação entre José e a mulher Samaritana não termina aí. Lembremos que  José recebeu  uma bênção especial de seu pai, no momento da morte de Jacó. Era uma promessa de que ele seria uma videira frutífera subindo pela  parede (Gênesis 49:22). O Salmo 80: 8 fala de uma vinha sendo trazida do Egito, cujos ramos se espalhariam  por toda terra, acabando por levar a salvação ao mundo através da videira verdadeira. Em João 15: 1, lemos que Jesus se identifica como esta videira verdadeira e assim como o antigo Israel, Jesus também foi simbolicamente tirado do Egito (Mt. 2: 15 [Open in Logos Bible Software  ). Em sua conversa com a mulher Samaritana, Jesus - uma videira prometida na benção de Jacó a José - está de fato escalando o muro da hostilidade entre os Judeus Israelitas e Samaritanos Israelitas para unir estas duas partes do seu reino através de Sua pessoa, ensino e ações. De uma forma profunda, simbólica esta conversa ao lado de um poço que foi construído por Jacó, a quem foi dada uma promessa!

Agora que nós analisamos alguns simbolismos relevantes do Antigo Testamento, vamos reler essa história através de um olhar diferente. Ela pode ter sido algo como:

Jesus inicia uma conversa com uma mulher: "Você vai me dar de beber?" Seus discípulos tinham ido  a cidade comprar comida. A mulher se sente segura com Jesus, pois, como ele não é de sua aldeia, ele não sabe sobre sua vida ou mesmo quão deprimida ela pode ter se sentido durante meses. Em sua opinião, ele era parte  de uma comunidade religiosa herética. Jesus não tem contato com os líderes Samaritanos Israelitas de sua comunidade. Ela estava segura. Esta abertura da mulher para Jesus é muito semelhante aos trabalhadores cristãos que procuram  aconselhamento para seus problemas familiares. Como pessoas que conhecem e amam são agradáveis, mas também podem ser perigosas. Quem sabe ?! Elas podem transmitir informações em alguns casos, podem terminar uma carreira ministerial por violar segredos. Assim, em casos difíceis, os trabalhadores do ministério cristão costumam optar por pagar especialistas em aconselhamento que são independentes e não ligados a suas igrejas e ministérios. O especialista é seguro. É o seu trabalho. Isto é tudo. Nesse sentido Jesus era seguro. Ele não era um Samaritano,  mas, Judeu.

O problema aqui não era simplesmente que Jesus era Judeu e ela uma Samaritana; seus pais, s e avós eram  inimigos ferrenhos em áreas religiosas e políticas. Ambos os povos consideravam o outro como impostores. Os estudiosos apontam, apelando para o Talmude Babilônico, algumas declarações rabínicas talmúdicas tais como "Como filhas dos samaritanos menstruam desde o berço" e, portanto, qualquer coisa que eles manusearem seriam impuras para os Judeus (bn. 31b) e "É proibido dar a uma mulher samaritana qualquer saudação "(bQed. 70a). 

É importante que estejamos conscientes de problemas metodológicos quando apelamos para o Talmud. O Talmude Babilônico foi codificado e editado muito mais tarde do que os Evangelhos (início dos anos 200 dC contra o inicio dos anos 600 dC). Por exemplo, devemos ser cautelosos ao usar o Talmud para explicar os Evangelhos, escritos muito antes. O Talmud não foi reconhecido como único representante,  representam apenas uma elite de  classes rabínicas marginais e não o modo de pensar de toda uma comunidade Judaica. 

Tudo isso para dizer que não era uma  regra  não cumprimentar uma mulher  samaritana; que  Jesus não podia falar com ela.  Não há um consenso sobre essa interpretação . Por outro lado, uma referência como mulheres samaritanas passando por períodos de menstruação desde o seu nascimento, embora, obviamente, mítica se encaixa perfeitamente com outras coisas que sabemos sobre o ódio profundo entre Samaritanos e Judeus.  É importante que nós imaginemos a mulher. Ela não estava rindo, ela estava tendo uma discussão informal, profundamente teológica e espiritual com Jesus.  Ela leva a sério a palavra de Deus .


Jesus deixa a mulher Samaritana saber que Ele entende seus problemas muito mais completamente o que ela pensa, mostrando-o que ele está ciente de toda a dor e sofrimento que ela sofreu em sua vida.

Por que existe uma  referência aparentemente obscura aos ossos de José terem  sido enterrados perto deste exato lugar onde a  conversa aconteceu? No início da história, João queria nos lembrar de José. Ele foi um homem que sofreu muito em sua vida, mas foi escolhido para finalmente ser usado para salvação de Israel e do mundo conhecido. Sob a liderança de José, o Egito tornou-se uma única nação que agiu com sabedoria, armazenando grãos durante os anos de fartura e em vez, e capaz de alimentar os outros durante os anos de fome. É altamente simbólico que esta conversa aconteceu na presença de uma testemunha silenciosa - os ossos de José. Deus em primeiro lugar permitiu que José passasse por uma terrível injustiça física, psicológica e social, mas ele então usou esse sofrimento para abençoar grandemente aqueles que entraram em contato com José. Em particular, israelitas marginalizados.

De acordo com o ponto de vista popular, é, no momento que a mulher recebe repreensão de Jesus que ela procura mudar o assunto, envolvendo-se em uma controvérsia teológica sem importância. O problema é que estas questões não são importantes para o leitor moderno. Elas eram uma preocupação muito real para os leitores antigos.  Por favor, considere uma interpretação alternativa de que, vendo que Jesus conhecia sua situação íntima miserável e também sua empatia compassiva, a mulher se sente segura o suficiente para quebrar uma tradição e também para escalar o muro das associações proibidas. 

"Senhor", disse a mulher, "Eu posso ver que você é um profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que o lugar onde se deve adorar é em Jerusalém ".

Na verdade, esta conversa profundamente teológica e espiritual foi um encontro muito importante no caminho da história humana, por causa do tremendo impacto da mensagem cristã em todo o mundo desde este encontro. Com medo e tremor a mulher Samaritana, guardando o seu sentimento de humilhação e amargura para com Judeus, fez sua pergunta na forma de uma declaração. 

"Jesus declarou: Acredite em mim, mulher, vem uma hora em que você não vai adorar o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém. Os Samaritanos adoram o que não conhecem,  nós adoramos o que conhecemos porque a salvação vem dos Judeus. Mas a hora está chegando e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, pois são estes adoradores que o Pai procura. Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorar em espírito e em verdade “.

Em nossa leitura, por exemplo,a mulher Samaritana reflete uma boa, honesta e justa suposição de que o ministério de Jesus  em Samaria era obsoleto. No  livro de Hebreus (Hb.12: 1-24) , o autor dirigiu-se à comunidade de  crentes,  ele afirma que a grandeza da fé no Deus de Israel por meio de Jesus, o Messias,  deve provocar  uma resposta muito maior do a consagração por meio da tradição Judaica. Ele exortou os crentes a perseverar na fé, como segue:

"Vamos fixar nossos olhos em Jesus, autor e consumador da nossa fé ... Você não vem para uma montanha que pode ser tocada e está em andamento em fogo ... Mas você veio ao Monte Sião, em Jerusalém celestial, uma cidade do Deus vivo. Você juntou-se a milhares e milhares de anjos em alegre assembleia, a igreja dos primogênitos, cujos nomes são escritos no céu. Viestes a Deus, o juiz de todos os homens, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, um Jesus, o Mediador de uma nova aliança, e o sangue do aspersão, que fala melhor do que o sangue de Abel ".

O argumento básico é que a responsabilidade de observar a Nova Aliança é muito maior do que todo o compromisso  que foi encontrado pelo povo de Deus no passado. Por favor, mantenha este compromisso é essencial, apesar das circunstâncias difíceis.  Jesus é maior do que o grande Moisés, uma Nova Aliança é maior do que uma grande Antiga Aliança, o sangue do homem justo (Jesus) é maior do que o sangue do justo Abel. Basicamente, quanto maior para uma aliança, maior é uma responsabilidade. Um dos argumentos incluídos na comparação geral no  livro de Hebreus é que o Monte Sião celeste é melhor e maior que a grande Sião terrena.

Jesus, no encontro com a samaritana, afirmou que o centro da adoração terrena tem que ser transferido da Jerusalém física para um Jerusalém espiritual celestial concentrado em si mesmo. Jesus também  falou com Natanael. Por favor, permita-nos explicar  João 1: 50-51.

"Jesus disse: 'Você crê porque eu disse que te vi na região debaixo da figueira.  Digo-lhes a verdade, você verá  o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem ".

Jesus invocou uma grande história da Torah do sonho de Jacó, dos anjos de Deus subindo e descendo sobre um Terra Santa de Israel, onde ele estava dormindo (Gn.18: 12). Ele disse a Natanael que muito em breve os anjos estariam subindo e descendo, e não em Betel (em hebraico - Casa de Deus), que os samaritanos acreditavam estar identificada com Monte Gerizim, mas sobre a última Casa de Deus - o próprio Jesus ( João 1: 14).

A religião Samaritana oficialfalava de um Messias:  "A mulher disse, Eu sei que  o Messias" (chamado Cristo) está chegando. Quando Jesus declarou: "Eu s que falo contigo, sou ele" (vs. 25-26). Lemos em Dt.18: 18-19  :

"Vou levantar para eles um profeta como tu dentre seus irmãos, eu colocarei minhas palavras na sua boca, e ele falará tudo o que eu o ordenar, Ele falará em meu nome".

Apesar de um antigo texto Samaritano falar figurativamente de alguém como o Messias - Taheb (Marqah Memar 4: 7, 12), os Samaritanos do tempo de Jesus apenas esperavam  um grande mestre-profeta. O "Messias" como Rei e Sacerdote era um Judeu Israelita, não um conceito Samaritano Israelita, tanto quanto conhecido. Por essa razão, a resposta da mulher Samaritana mostra que esta não é uma conversa imaginária ou simbólica. Em vista disso, parece que agora uma mulher graciosamente usava terminologia judaica para se relacionar com Jesus - o Judeu [5].  Assim como Jesus estava escolhendo escalar o muro de tabus, agora a mulher Samaritana que o fazia.

A história muda rapidamente com o retorno dos discípulos. Este intercâmbio é encaixado entre o encontro da mulher Samaritana e os homens da sua aldeia. Os discípulos ficaram surpresos ao vê-lo conversando com uma mulher Samaritana, mas ninguém o desafiou sobre uma inadequação de encontro.

Deixando para trás seu cântaro, a mulher correu para  cidade para contar ao seu povo sobre Jesus. Faz uma pergunta importante para eles: seria este a quem Israel tem esperado por muito tempo? Falando como se ele estivesse no contexto do encontro, Jesus aponta aos seus discípulos que aquele encontro  era vontade de Deus. Que faça a vontade de seu Pai, de uma energia divina da vida. Esta energia divina o permitiu continuar seu trabalho. 

Jesus desafiou seus discípulos. O escritor do Evangelho de João está desafiando seus leitores a considerar a plantação que está pronta para uma colheita. É quase certo que os discípulos de Jesus pensavam que Ele era exclusivo da comunidade judaica. Jesus desafiou-os a   olharem   uma comunidade vizinha herética e contraditória para uma colheita - um campo que não é considerado este encontro. O significado do comentário de Jesus sobre o encontro não foi para destacar a importância da evangelização em geral, mas sim para chamar a  atenção para os campos que antes não foram vistos ou foram  considerados inadequados para uma colheita.

Enquanto Jesus, sem dúvida, estava conversando com seus seguidores sobre a adequação de ensinar os caminhos de Deus para os Samaritanos, ele ouviu ao longe como vozes da multidão aproximando-se dele. A testemunha fiel deste evangelho, descreve o fato assim:

"Muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, por causa do testemunho da mulher," Ele me disse tudo o que eu já fiz. "Assim, quando os samaritanos foram a ele, pediram-lhe que ficasse com eles, e ele ficou dois dias. E por causa das suas palavras, muitos outros creram. Eles disseram à mulher: "Agora não acreditamos apenas por causa do que você disse, agora nós somos ouvidos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo" (vs.39-42).

Honesta Hermenêutica

Uma interpretação da Bíblia é tarefa difícil. É tão difícil como interpretar qualquer outra coisa na vida. Nós trazemos nosso passado, como nossas novidades prévias, nossa teologia já formada, nossos pontos de vista,  nossa posição social, nosso sexo, nossos pontos de vista políticos e muitas outras influências para uma interpretação da Bíblia. Em suma, tudo o que somos, de alguma forma determina a forma como nós interpretamos tudo. Isto não implica o significado do texto, mas que ele  dependente do  leitor. Uma leitura do texto difere e depende de todos os tipos de coisas que realizam o processo de interpretação. Em outras palavras quer seja um  leitor, quer seja  um ouvinte, o que se compreende do texto pode diferir muito de pessoa para pessoa.

Uma das maiores tecnologias na empreitada de interpretação da Bíblia tem sido uma incapacidade de reconhecer e admitir que uma interpretação particular pode ter um ponto fraco. O ponto fraco é geralmente determinado por preferências e indústrias de sinalização de provar uma teoria particular, independentemente do custo. Nós, os autores, consideramos que ter uma consciência de nossos pontos de vista e estar honestamente dispostos a admitir problemas com interpretações, quando existem, são mais importantes do que o brilhantismo intelectual com que defendemos nossa posição.

Uma próxima pergunta séria por que a leitura do manuscrito deve ser preferida em relação ao comumente usado? Para explicar, vamos precisar introduzir uma importante ferramenta de estudos bíblicos que pode  ser desconhecida para muitos leitores. No entanto, muitos de vocês estão familiarizados  com a  aplicação desta ferramenta, pois ela é utilizada  muitas vezes por pessoas que trabalham com novas traduções da Bíblia. Por exemplo, muitas Bíblias modernas colocam entre parênteses o texto de João 8: 1-11 e mencionam que manuscritos mais antigos e mais confiáveis não são conhecidos por uma história da mulher apanhada em adultério que foi trazida a Jesus (Marcos 16: 9- 20 é tratado da mesma forma). Esta versão possui uma lista interminável de correções, alterações e novidades que melhoram notavelmente o seu avanço. A ferramenta interpretativa que foi usada aqui é chamada de crítica textual. Uma nomenclatura é enganosa, uma vez que o texto não está sendo criticado, mas analisado e comparado com outros manuscritos. Em palavras-chave críticas, consulte uma revista de texto, em comparação com outros textos, com o objetivo expresso de determinar os antigos e precisos manuscritos.

A crítica textual considera vários manuscritos antigos, uma vez que não É sempre original de qualquer livro bíblico, com o objetivo de determinar o texto  mais próximo possível do original. A crítica textual usa todos os manuscritos descobertos, recentes e antigos. 

Conclusão

Os nossos tribunais democráticos seguem  o princípio: "inocente até provar o  contrário". Em certo sentido, estamos declarando aqui para o tribunal de nossos leitores que acreditamos que há um problema  razoável na interpretação popular do encontro de Jesus com a mulher samaritana. "Estamos argumentando sobre as  acusações de imoralidade e não buscando  uma “verdade espiritual" . Queremos assegurar que há falta de provas para acusação popular e querendo afirmar que existem   outros cenários prováveis que querem explicar uma interação entre ela e Jesus de uma forma mais satisfatória. Argumentamos que esta história deve servir como um exemplo e uma chamada para reconsiderar uma mensagem das Sagradas Escrituras em seus contextos históricos e com maior disposição para repensar as tradições aceitas. Sugerimos uma alternativa possível para uma interpretação usual. Acreditamos que a nossa alternativa é aquela mais responsável. Nossas reivindicações são, portanto, modestas, mas permanecem desafiadoras. Foi Mark Twain que disse: "A lealdade a uma opinião petrificada nunca quebrou uma corrente ou uma alma humana".

© Por Eli Lizorkin-Eyzenberg, Ph.D.

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[1] É um erro pensar que uma razão principal para uma antipatia Judaica em relação aos Samaritanos era racial. O Judaísmo semper teve uma forte tradição de conversões dos Gentios, onde os Gentios convertidos se tornaram Judeus de pleno direito e são aceitos pela comunidade. Um exemplo notável de tal atitude é o rabino Akiva que não era etnicamente Judeu (nem ele nem seus pais passaram por uma conversão formal ao Judaísmo). Não é o DNA não Judeu que foi responsável por antipatia Judaica. A relação conflituosa foi em grande parte de natureza religiosa. O componente político de rivalidade também não é criado por negligenciado quando se considera como razões para o reto negativo entre Samaritanos e Judeus. Por exemplo, quando Alexandre o Grande passou por região, foi relatado que pagou tributo ao Deus de Israel, não Templo do Monte Gerizim e não não Monte Sião.

[2] Isso pode ter sido um caso de corrupção textual onde uma letra final ("mem" foi substituído por "resh") foi confundida por um escriba.

[3] Ver Calum M. Carmichael. O casamento e a mulher Samaritana. Estudos do Novo Testamento 26 (1980): 332-346.

[4] Ver também Sl. 60: 6-7 e Sl. 108: 7-8 onde literalmente se diz duas vezes que Efraim e equipamento de proteção de Deus - capacete.

[5] Os samaritanos chamavam seu templo de "Zeus o amigo de estranhos", evitando assim problemas sob Antíoco IV (2 Mac 6: 2 [Open in Logos Bible Software (if available)] ), que reforçou ainda mais os sentimentos negativos entre Judeus e Samaritanos. Dt.27: 3 [Open in Logos Bible Software (if available)] no MT indica o Monte Ebal como o lugar onde o primeiro altar foi construído, enquanto o Pentateuco Samaritano considera Monte Gerizim como sendo este lugar. Não está claro se o MT mudou a identidade da montanha por causa de pontos de vista anti-samaritanos ou vice-versa.

Fonte: Blog Tenda na Rocha

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Como os judeus se espalharam por mais de 100 países e ainda conseguiram manter vivos valores e tradições.




Os judeus são o único povo que nasceu com o dever divino de habitar uma região do planeta: Canaã (Israel). No entanto, ao longo de seus 4 mil anos de história, eles se tornaram a nação mais cosmopolita do mundo. As comunidades judaicas hoje se espalham em mais de 100 países – do México à Inglaterra, do Cazaquistão à África do Sul, de Cuba ao Japão. Com exceção de Israel, os judeus têm vivido como minorias em todos esses lugares.

“A história judaica é marcada por sucessivas dispersões e diásporas dentro de diásporas”, diz Luis S. Krausz, professor de Literatura Hebraica e Judaica na Universidade de São Paulo (USP). “Essa história começa com a destruição do Templo de Salomão pelo rei Nabucodonosor, no século 6 a.C., quando os judeus foram levados ao cativeiro na Babilônia. E continua até o século 20, com a dispersão e o genocídio dos judeus da Europa.”

Tantas travessias produziram uma diversidade de grupos judaicos que cristalizaram costumes, idiomas e culinárias dos lugares onde viveram. E também contribuíram para enriquecer as culturas locais. Nesta reportagem, vamos viajar pelos momentos mais importantes da saga judaica através das fronteiras.

Babilônia e Império Romano

Os judeus botaram o pé no mundo em 587 a.C., quando o rei babilônio Nabucodonosor invadiu o antigo reino de Judá (ao sul de Israel). O monarca arrasou Jerusalém e mandou parte de seus habitantes para a Babilônia, na Mesopotâmia (hoje Iraque). Mas o que havia sido um degredo imposto à força contribuiu para o florescimento do judaísmo. “Foi durante o exílio que se impôs pela primeira vez a todos os judeus a prática regular de sua religião”, diz o historiador britânico Paul Johnson no livro História dos Judeus.

“Também foi reforçado o ritual da circuncisão, que os distinguia dos pagãos, e o costume do shabat (dia do descanso)”, diz Johnson. Os escribas redigiram as tradições orais e compilaram os pergaminhos vindos do templo destruído. O calendário judaico se aprimorou com a astronomia babilônica e incluiu festas como o Pessach (Páscoa), que recorda a saída dos hebreus da escravidão no Egito. 

Apenas 50 anos depois, em 538 a.C., o rei persa Ciro permitiu a volta dos judeus a Jerusalém e a reconstrução do templo. “Muitos preferiram ficar na Babilônia, que permaneceu como um centro da cultura judaica por 1,5 mil anos”, diz Johnson. Em 63 a.C., uma nova reviravolta. O general Pompeu invadiu a Judeia e a transformou em província do Império Romano. Terminava assim o reino dos Hasmoneus – o último país judeu independente que existiu até a criação do Israel moderno, em 1948.


A tensão culminou com uma rebelião. Em 70, o general romano Tito reprimiu os revoltosos, destruiu o segundo templo e mandou os judeus a uma nova diáspora, que alcançou a Ásia, a Europa e o norte da África. Mas ao contrário dos anos na Babilônia, o exílio nos domínios romanos marcou o início das perseguições. “Os romanos não toleravam o culto judaico a um Deus único nem costumes como oshabat”, diz o historiador francês Gerald Messadié no livro História Geral do Antissemitismo

A situação piorou com a conversão do imperador Constantino ao cristianismo, no século IV. Em 325, o Concílio de Niceia acusou os judeus pela morte de Jesus, o que serviu de base para o mito medieval de que tinham poderes sobrenaturais e eram aliados do diabo. Os judeus foram proibidos de exercer funções públicas, ter empregados e se casar com não judeus. Qualquer semelhança com as Leis de Nuremberg, promulgadas em 1935 pelo nazismo, não é coincidência.


Os Sefaradim

No século 9, a comunidade judaica da Babilônia começou a declinar e muitos rumaram para outros cantos do globo. Parte foi para o norte da África, à região que hoje corresponde a Argélia, Marrocos, Sahara Ocidental e Mauritânia. Lá se assentaram nos domínios de duas tribos muçulmanas: os berberes, que eram exímios guerreiros; e os mouros, mais tolerantes, que se dedicavam ao comércio, ao artesanato e à ciência.

Como os exércitos mouros estavam em franca expansão pela Espanha, os judeus pegaram carona com eles – e ficaram conhecidos como sefaradim (de Sefarad, “Espanha” em hebraico). Produziram uma língua própria, o ladino, impregnando de vocábulos hebraicos o espanhol medieval. A união entre mouros, judeus e ciganos daria origem ao flamenco, que até hoje é tocado e bailado como um hino à liberdade.

Nos demais países muçulmanos, os judeus viviam como cidadãos de segunda classe. Podiam seguire suas crenças nos dhimmis (comunidades protegidas) desde que pagassem impostos. Seu status era superior ao de pagãos e escravos. “No mundo islâmico, os judeus desfrutaram de prosperidade nos séculos 10, 11 e 12. Houve explosões de violência contra eles, mas esporádicas e locais”, diz o historiador britânico Nicholas de Lange em Povo Judeu. Alguns chegavam a ser ministros dos califas. O rabino Maomônides (1135-1204), um grande filósofo da Idade Média, foi o médico dos sultões no Egito.

“No século 13, quando o mundo muçulmano passou a sofrer pressões dos cristãos no oeste e dos mongóis no leste, a condição dos judeus piorou de forma dramática”, diz Lange. “Os líderes islâmicos deram carta branca à intolerância religiosa.” Pior: no século 15, Fernando de Aragão e Isabel de Castela (os reis católicos) se uniram para acabar com o domínio muçulmano no sul da Espanha. A Santa Inquisição queimava judeus como “hereges” e pilhava seus bens.

Em 1492, os reis católicos derrotaram Granada, o último bastião mouro na Península Ibérica. E expulsaram os judeus que não aceitassem a conversão imediata à fé cristã. Os que quiseram praticar o judaísmo de forma aberta emigraram para o Império Otomano, que abrangia a Turquia, o norte da África e o Oriente Médio. “A maioria, cerca de 100 mil, optou pela solução mais fácil: fugir para Portugal”, diz Lange. “Foi uma decisão equivocada. Cinco anos depois, o rei dom Manuel batizou os judeus à força.”

Os convertidos, continuaram sendo alvo de suspeita dos inquisidores. Tanto que ficaram conhecidos como marranos (“porcos”, em espanhol) ou anussim(“forçados”, em hebraico). “Para muitos, a saída foi praticar o judaísmo secretamente, correndo risco de vida”, diz o escritor americano-português Richard Zimler, autor de vários livros sobre o tema. Outros botaram o pé no mundo e se fixaram em todo o arco mediterrâneo, sul da França, Holanda, Inglaterra e norte da Alemanha.


Segundo Johnson, a diáspora sefaradim mobilizou judeus do mundo inteiro. A chegada de refugiados a uma cidade provocava a expulsão dos que lá viviam. “Muitos judeus converteram-se em vendedores ambulantes”, diz. Vem dessa época a lenda antissemita do Judeu Errante o sujeito que teria negado água a Jesus no trajeto até a crucificação e por isso havia sido condenado a uma vida sem rumo. O primeiro gueto da história, em Veneza, data de 1516. Outros cristãos vieram para o Brasil, trabalhar em Minas Gerais ou nos engenhos de Pernambuco. Em 1636, fundaram no Recife a primeira sinagoga das Américas sob a bênção dos holandeses.

Os Ashkenazim

A saga dos sefaradim foi simultânea à de outro importante grupo: os ashkenazim (do hebraico medieval Ashkenaz, “Alemanha”). Eles se assentaram entre a Alemanha e a França, ao longo do Vale do Reno, a partir do século 8, incentivados pelo imperador Carlos Magno. A maioria se dedicava ao artesanato, à fabricação de vinhos e ao comércio – conheciam como poucos as rotas para o Mediterrâneo e o Oriente Médio.

“No século 13, muitos ashkenazim foram para a Polônia atraídos pelas oportunidades econômicas”, diz Lange. “Tinham em suas mãos a maior parte do comércio.” A idade dourada dos ashkenazim acabou em 1648, ao serem alvo de uma rebelião dos cossacos, vindos da Rússia e da Ucrânia, que investiram contra os judeus, matando perto de 100 mil e dizimando 300 comunidades. O antissemitismo tornou a Europa um lugar perigoso. Judeus já haviam sido expulsos da Inglaterra em 1290 e da França em 1306.

“A ausência de um Estado fez com que construíssem sua identidade com base em parâmetros mais religiosos e étnicos do que nacionais ou territoriais”, diz Krausz. Em geral, viviam como estrangeiros, apenas tolerados. Não podiam reivindicar os direitos dos outros cidadãos e pagavam impostos abusivos. Não tinham terras nem participavam de corporações de ofícios, que só aceitavam cristãos. “Restava-lhes o pequeno comércio e a lida com o dinheiro”, diz Krausz. Os ashkenazim chegaram à Lituânia Ucrânia, Moldávia e Rússia. Viviam num vilarejo semi-isolado, o shtetl. Assim como os sefaradim, criaram seu dialeto: o ídiche, que mescla alemão medieval com termos hebraicos e eslavos.

A Emancipação

Quando os ventos da Revolução Francesa sopraram na Europa, os judeus puderam sair do gueto e conquistaram a cidadania. Figuras como Albert Einstein e Sigmund Freud moldaram o pensamento do Ocidente. Mas, se por um lado o século 19 trouxe emancipação, também instigou o nacionalismo. Os modernos Estados-nação acusaram os judeus de não participar da cultura majoritária e, portanto, da identidade nacional.

A Rússia virou palco do pogrom – uma perseguição insuflada pelos czares. Algumas matanças acabaram com shtetls inteiros e motivaram levas de emigrantes para ir para os EUA. A partir de 1880, milhares de ashkenazim retornaram ao ponto de partida, a Palestina. A Inglaterra assumiu o controle da região após a Primeira Guerra e impôs restrições à imigração, apesar de defender um lar nacional para os judeus bem ali, onde Davi havia governado 3 mil anos antes. A imigração aumentou nos anos 30, com o fluxo de judeus que fugiam do nazismo.

Após a criação de Israel, em 1948, judeus foram expulsos de países árabes onde residiam havia séculos. No Egito, que tinha 65 mil judeus em 1937, restaram menos de 100. Na Líbia, nenhum. “Quando meu pai era menino na Polônia, as ruas eram cobertas de pichações dizendo: 'Judeus, vão para a Palestina!', quando voltou, em visita à Europa 50 anos mais tarde, os muros estavam cobertos de pichações dizendo: 'Judeus, saiam da Palestina!'”, recorda o escritor israelense Amós Oz no livro Contra o Fanatismo.



Os muitos judeus
Os sefaradim e os ashkenazim são os principais grupos, mas há outros

Italianos

Vivem na península da Itália desde a destruição do segundo templo, no ano 70. A eles se juntaram sefaradim deportados da Espanha e de Portugal no século 15.

Norte da África

São descendentes dos judeus que se assentaram ali por volta do século 9. Também foram expulsos após a criação de Israel. Na Líbia, por exemplo, não restou um único judeu. No Egito, menos de 100.

Mizrahim

Viveram no Iraque, Síria, Líbano, Egito e outros do Oriente Médio desde a Antiguidade, muito antes da chegada dos sefaradim, com quem são confundidos. Sua fala e seus nomes são árabes. Os do Iraque descendem de cativos que foram levados à Babilônia no século 6 a.C. Foram expulsos após a Independência de Israel, em 1948.

Teimanim

Chegaram ao Iêmen provavelmente no tempo de Salomão. Falam árabe como os mizrahim, mas sua tez é morena-escura e possuem um folclore muito típico. Expulsos após a criação de Israel, restaram cerca de 200 no Iêmen.

Etíopes

Conhecidos como Beta Israel ou falashas, têm origem desconhecida. Teriam chegado lá nos tempos de Salomão ou se convertido ao judaísmo em algum momento posterior. Em vez de hebraico, usavam o ge'ez ou o am'hári como língua religiosa e eram observadores estritos do shabat e da kashrut (lei alimentar). Eram quase 40 mil, viviam em campos de refugiados e foram resgatados por Israel nos anos 80 e 90.

Indianos

O sincretismo do hinduísmo se combinou com a segregação do sistema de castas – que acabou protegendo-os. Os judeus da costa do Malabar viveram muito tempo separados do resto do mundo. Hoje são cerca de 5 mil.

Chineses

Se assentaram em vários locais do país na Idade Média e foram bem tolerados pelo confucionismo. A maior comunidade ficava em Kaifeng, mas foi perdendo suas tradições. Hoje são cerca de 2,5 mil em toda a China.




* Nota: Desde a escolha de Israel, como povo de propriedade de Deus, o inimigo tem sempre procurado destruí-lo. Ele costuma usar dirigentes políticos como Hitler, Nasser, Kaddafi, Yasser Arafat, mas também a imprensa de esquerda. O Holocausto começou com Faraó. Na peregrinação pelo deserto foi o rei Balaque que usou os serviços do renomado adivinho e "vidente" Balaão. Este era uma sumidade no terreno do ocultismo. Balaão deveria amaldiçoar Israel por meio de suas temidas maldições mágicas, o que falhou apesar de diversas tentativas. Contra a vontade de Balaque e Balaão, ao invés de maldição, esse falso profeta teve de pronunciar as mais gloriosas palavras de bênção: "Benditos os que te abençoarem, e malditos os que te amaldiçoarem... uma estrela procederá de Jacó, de Israel subirá um cetro" (Nm 24.9b e 17a). E é pelas mãos de Deus que também se denomina "Deus de Israel" que a história dos judeus se mantém viva, como um milagre entre as nações.

Texto: Eduardo Szklarz ,Revista História , Ed.119 - Junho 2013 - Pág. 44 a49. 
Nota: de Burkhard Vetsch, com acréscimo de Wilma Rejane

Postado no Blog "A TENDA NA ROCHA" de Wilma Rejane